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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Relato de Parto do Bernardo - Parte III (Final)



Para ler a parte II clique aqui.
Para brigar comigo por eu ter demorado tanto a publicar a parte final do relato clique aqui.

Fui com meu marido para o outro andar, onde ficavam as salas de parto e o centro cirúrgico. Conversei com o plantonista, o dr A. (o mesmo que tinha me recebido na noite anterior para a avaliação inicial). Foi com ele que uma das minhas enfermeiras obstetras conversou para passar o meu caso. Ele foi muito gentil e concordou em aguardar mais tempo para que eu tivesse a oportunidade de entrar em trabalho de parto.

Seria necessário, entretanto, iniciar o antibiótico quando eu completasse 18h de bolsa rota. Combinamos que na troca de plantão, que seria em torno das 6 da tarde, conversaríamos novamente para decidir o próximo passo. Eu ainda tinha tempo suficiente para não precisar da indução e resolvi me agarrar a essa esperança.

A partir de então fiquei caminhando pelo hospital e fiquei esperando. Esperando...esperando... e nada. Ainda estava na fase de pródromos (a que me referi na parte II deste relato). Me vi em uma das situações que mais quis evitar ao longo de todo o planejamento do nascimento do Bernardo: Estar "presa" dentro de um hospital pressionada pelo relógio para entrar em trabalho de parto. Sempre quis poder esperar esse momento em casa, com tranquilidade. A ansiedade só atrasa as coisas!

Em um dado momento comecei a me questionar... Não sabia se estava fazendo a coisa certa. Afinal, se eu não entrasse em trabalho de parto logo, eu teria que induzir e encontrar um monstro, digo, a ocitocina sintética. Ou, o que para mim ainda era pior, "entrar na faca", que é como algumas pessoas se referem à cesariana. Que fique claro: Não tenho nada contra a cesariana. É uma cirurgia maravilhosa e que já salvou muitas vidas! O problema é que ela vem sendo utilizada sem razões proporcionais. Uma intervenção cirúrgica desnecessária é algo bastante problemático.

Nesse tempo de espera fiquei ansiosa, e até mesmo angustiada. eu diria. Me vi em uma das situações que mais desejei evitar durante a gestação: Estar dentro de um hospital lutando contra o relógio enquanto esperava o começo do trabalho de parto. Continuamos na expectativa, mas nos perguntávamos se ter ido para o hospital antes do trabalho de parto começar teria sido mesmo a melhor opção. Sabíamos que a ansiedade gerada por essa situação não favorecia o início do trabalho de parto. Eu preferiria ter ficado em casa relaxando ao invés de estar limitada a caminhar na varanda de um hospital vestida com uma camisola de paciente.

Meu marido esteve sempre ao meu lado e, apesar dessa situação de indecisão por que passamos, decidimos seguir as recomendações das pessoas a quem confiamos o parto do nosso filho. Como diz o ditado, "Quem obedece não erra" e, tanto a minha obstetra quanto as enfermeiras obstetras nos indicaram claramente que lá era o lugar em que devíamos estar. Mesmo contrariados, mesmo nos sentindo mal com aquela situação, ponderamos juntos, choramos juntos e ficamos firmes juntos. Claro, com a graça de Deus que nunca nos faltou.

Resolvi, então, continuar caminhando para estimular as contrações e ia anotando a frequência delas no celular. Continuavam sem um ritmo bom. Eu ainda estava nos pródromos... Recebi uma visita dos meus pais e da minha doula, que fez uma massagem nos meus pés para estimular. Infelizmente não adiantou. Não me lembro bem como passamos o restante do dia, mas o tempo passa de uma forma muito esquisita quando estamos numa situação como essas.

Foi anoitecendo e nada de nos chamarem para conversar com o médico. Já passava da hora do plantão e nada. Cerca de 21h, se não me falha a memória, conversamos com o médico e ele nos indicou a indução. Ele compreendia que queríamos muito um parto da forma mais natural possível, mas também nos lembrou que as vezes a natureza mata. Aceitamos o parecer dele e ficamos aguardando uma vaga nas salas de parto, que estavam todas ocupadas.

Fui dormir, mas lembro que antes disso aferiram minha pressão e estava 14 por 9. Estranho é que esse resultado da aferição de pressão simplesmente sumiu e não foi colocado no meu prontuário (!), mas eu me lembro bem. Por volta de umas 23h fomos chamados para subir para o andar das salas de parto. Esperei minha doula chegar lá e, enquanto isso, continuamos aguardando a liberação da sala. Acho que só consegui entrar mesmo lá para meia noite.

A médica plantonista fez um toque, me avaliou e considerou que, como o colo do útero estava favorável, não seria necessário induzir com misoprostol (comprimido), mas poderíamos partir direto para a ocitocina sintética. Ela me deixou na sala com meu marido e doula. Comecei a fazer alguns exercícios na bola de pilates (aliás não tinha bola no meu quarto! Minha doula viu uma que não estava sendo usada em outra sala e trouxe). Em um dado momento me senti cansada e resolvi deitar na maca. Foi então que senti algo como um "ploft!" e mais líquido amniótico escapou (bastaaante!). Era o restante que ainda não tinha saído quando a bolsa rompeu na sexta a noite.

Nesse líquido foi identificada a presença de mecônio (o que é de se esperar em uma gestação de 41 semanas). Por conta disso, a médica achou por bem fazer uma cardiotocografia antes de iniciar a indução. Isso era por volta de umas 2 ou 3 da manhã. Na verdade, não sei bem porque não iniciaram a indução antes, porque ficamos um bom tempo esperando. Há males que vem para bem.

Fiquei uns 40 minutos nessa cardiotoco e a médica observou que o bebê estava bradicardizando, dipando, ou algo do tipo. Não entendo muito dos termos técnicos, mas o fato é que fiquei bastante aflita. Quando vinha a contração era como se o coração do bebê espaçasse muito as batidas. Se o normal era tum-tum tum-tum tum-tum, o do meu filho estava tum--------tum.....tum--------tum..... e depois regularizava quando passava a contração. Como ele recuperava bem o ritmo cardíaco, a obstetra decidiu que era possível iniciar a indução.

Esses momentos na sala de parto foram os de mais dor e mais glória. Tudo aquilo que eu tinha sonhado para o momento do trabalho de parto foi sendo colocado em prática. Eu estava com as luzes apagadas, velinhas acesas e escutando canto gregoriano. Para estragar a "vibe", incomodou o fato de que no meu chuveiro não tinha água quente. Além disso, quase toda vez que eu queria ir ao banheiro (o que aliás era muito frequente) o aparelho que bombeava o hormônio parava de funcionar. Acho que era mal contato. O fato é que tínhamos de chamar a enfermeira a toda hora para consertar até o ponto em que o próprio Marcos aprendeu o mecanismo...

Algum tempo depois da cardiotoco, 1 hora talvez, surge um médico: Dr. Y. Ele vinha auscultar o coração do bebê (algo que, diga-se de passagem, não tinha muito porquê, afinal a prática do hospital era auscultar de 2 em 2 horas se não me falha a memória, e eu tinha feito uma cardiotoco há bem pouco tempo). Após a ausculta, que estava boa, Dr. Y observou o mecônio no lençol branco sobre a bola de pilates (o que também não era surpresa alguma para a equipe plantonista, afinal eu tinha feito a cardiotoco justamente por isso) e disse que precisaria fazer um toque.

Nesse momento ele fez uma cara assustada e, se não me engano, disse algo como "meu Deus!". Tentou encontrar as palavras certas para me informar rapidamente que, embora eu desejasse muito um parto natural, estava com uma clara indicação de cesárea de urgência: um prolapso de cordão. Meu marido não sabia bem do que se tratava naquele primeiro momento, mas eu sim. Tinha estudado bastante sobre as indicações de cesárea e, por isso mesmo, comecei a chorar. O médico me tranquilizou e disse que, pela ausculta, o bebê estava bem. Ia dar tudo certo.

O hormônio da indução foi retirado e fui transportada para a o centro cirúrgico. Soube depois que tudo foi organizado muito rapidamente para a cirurgia, com direito à equipe se comunicando através de rádios para deixar tudo pronto. Tudo aconteceu como num piscar de olhos... Recebi a anestesia e nem tive tempo de ter medo dela! Em menos de 15 minutos, a partir do momento em que o prolapso fora diagnosticado - o Bernardo nasceu.

Com APGAR 9/9 a vitalidade dele estava ótima.  Uma das coisas mais curiosas de tudo isso foi que, algum tempo antes, tinha ouvido falar mal do dr. Y, como se ele fosse um médico que - ao contrário da conduta geral do hospital - enxergava motivos de cesariana onde não havia. Quando soube que ele ia assumir o plantão fiquei preocupada, mas foi justamente ELE que diagnosticou o prolapso do Bernardo a tempo. Incrível, não?

Meu filho não veio direto para o meu colo como eu gostaria, mas entendo que pela urgência da cesárea talvez a equipe tenha julgado mais prudente avaliá-lo bem primeiro. Ouvi certos rumores na sala de cirurgia sobre colírio, mas naquele momento eu já não queria discutir nada...

No pós-operatório a enfermeira colocou o Bernardo ao meu lado, deitado na maca, e indicou que eu deveria amamentá-lo. Acho que naquelas circunstâncias ela não teria mesmo muito tempo para me orientar nesse sentido, mas o fato é que amamentar pela primeira vez pode ser difícil - ainda mais sem ajuda, deitada e com os movimentos limitados pelos efeitos da anestesia.

Como não consegui, a enfermeira disse que ia dar para o Bernardo uma fórmula (!). Eu pedi que me desse a oportunidade de tentar de novo, e ela assim o fez. Não consegui. Como ele nasceu bem grandão e gordinho (57,7 cm e 4,5 kg!), ficou com a glicose baixa por não ter se alimentado logo e teve que ser direcionado para a Unidade Intensiva. 

Isso foi bem chato, mas pelo menos lá na UI as enfermeiras tiveram toda a delicadeza de me ajudar a desbravar esse mundo da amamentação. Ao contrário da enfermeira anterior, que de certa forma chegou a sugerir que a culpa da glicose baixa era minha, por não ter querido dar logo a fórmula...

Bernardo nasceu num domingo de Ramos (benedictus qui venit!) e foi para o meu quarto na terça feira, se não estou enganada. Recebi a orientação de amamentá-lo exclusivamente, mas caso julgasse necessário poderia pedir a fórmula. Lembro que houve uma noite, talvez de terça pra quarta, em que ele não parava de chorar e não queria pregar os olhos. Achei que meu leite não estava sendo suficiente e pedi a fórmula, mas era só fralda suja haha (como não pensei nisso!).

Em contrapartida, em outra noite ele dormiu muito bem, tão bem que não amamentei de madrugada e, com isso, mediram sua glicose de manhã estando ele em jejum e, como evidentemente estava baixa, tivemos de ficar mais um dia no hospital.

Enfim, quinta fomos para casa e esse foi o fim - ou o início - da nossa bonita aventura!



[Desculpem a demora em terminar esse relato. Espero que o da Laura saia com mais antecedência... Sim, estou grávida! Estamos com 25 semanas e rumo a um VBAC, se assim Deus quiser].









sexta-feira, 27 de maio de 2016

Relato de Parto do Bernardo - Parte II

Para ler a parte I, clique aqui!



 Continuação:

   Como eu ainda estava meio molhada do banho, não consegui distinguir a cor do líquido amniótico. Percebi claramente que poderia ser a bolsa por que senti que era algo bem quentinho e eu estava acabando de sair de um banho frio…

   Essa notícia foi uma injeção de ânimo para mim. Eu sabia que, além do fato de minha pressão ter alterado um pouquinho, outro fator que preocupava minha equipe era o fato de que eu já estava com 41 semanas e um dia de gestação. Não há nenhum problema nisso, claro, mas a questão era que os pequenos riscos da minha pressão estavam se somando aos pequenos riscos de uma gravidez prolongada… e é aí que morava o problema.

   Assim, pensei que quando eu contasse às minhas enfermeiras que a bolsa havia estourado eu poderia continuar em casa, afinal o trabalho de parto ia começar e não precisaríamos nos preocupar com os riscos de chegar a 42 semanas. Não foi assim! Aos riscos já mencionados só se somou mais um: Com a bolsa rota e sem previsão de início do trabalho de parto, o caminho ficava mais livre para possíveis infecções.

   Minha equipe ia sugerir que eu me internasse no dia seguinte para fazer uma indução, mas, diante do cenário de bolsa rota, a recomendação foi a de que eu fosse para o hospital ainda naquela noite. Deitei na cama para que elas apalpassem a minha barriga e avaliassem o Bernardo. Mal tive tempo de me levantar, saí correndo para o banheiro. Mais líquido amniótico! E, dessa vez, muuuuuuito mais! É muita esquisita essa sensação.

   As enfermeiras analisaram o líquido e identificaram a presença de mecônio (o que era normal naquela altura do campeonato), mas isso a princípio não era um problema, porque o líquido estava bem fluido. Liguei para a minha doula meio atordoada e pedi que ela conversasse com uma das enfermeiras. Seria possível que isso estivesse realmente acontecendo? Estava angustiada porque meus planos estavam indo por água a baixo.

   Sonhei com meu parto domiciliar. Preparamos cada detalhe, aluguei o oxigênio, higienizei e esterilizei as fraldinhas de pano que iam tocar a pele do meu filho, comprei uma lona de plástico para a piscininha… Todo esse ideal tão acalentado por mim não aconteceria mais, e isso dói aceitar. Doeu também saber que eu teria de ir para o hospital sem estar em trabalho de parto e me preparar para a tão temida indução com ocitocina sintética, que faz os mais bravos mortais verem estrelas em poucos minutos.

   Preparei minhas bolsas, jantei e esperei minha doula chegar. Fomos com calma para o hospital e chegamos lá por volta das 23h. Uma das enfermeiras da minha equipe nos encontrou lá e passou o meu caso para o médico do plantão, o dr. A. Até hoje não sei exatamente se cheguei ao hospital com 0 ou 1 cm de dilatação, mas o médico disse que meu colo estava fechado e que não havia mecônio no líquido amniótico. As alterações de pressão que relatei foram solenemente ignoradas, talvez porque para um ambiente hospitalar não fossem assim tão relevantes.

   Fiz minha primeira cardiotocografia e, de vez em quando, eu já estava começando a sentir algumas contrações, mas bem de leve. Dormi na enfermaria com meu marido por volta das 3 da madrugada. Na manhã seguinte, resolvi me exercitar para tentar acelerar o processo e ver se o trabalho de parto engatava. Caminhei na varanda do hospital e fui marcando o tempo do intervalo entre as contrações, que estava bem irregular. 10 min, 12 min, 5 min (!)...20 min (?)… enfim.

   Aqui cabe uma pequena explicação para quem talvez não esteja entendendo muito bem. A vida real não é como na TV, em que logo que a bolsa rompe a grávida sai correndo desesperada para o hospital e dá à luz o filho 5 minutos e 3 gritos depois. O rompimento da bolsa não significa o início do trabalho de parto. A grande maioria das mulheres entra em trabalho de parto em até 24 horas depois que a bolsa rompe, mas para outras esse tempo pode chegar a 48 e, em alguns casos, até 72 horas.

   Mas..o que é trabalho de parto? Podemos dizer que a gestante está em trabalho de parto quando suas contrações vem em curtos intervalos regulares. Algo em torno de 3 em 3 minutos, por exemplo. Contrações irregulares são os chamados pródromos, e podem ocorrer até semanas antes do trabalho de parto em si. É o corpo se preparando para o grande acontecimento que está por vir, e não há nada de estranho nisso.

   Infelizmente muitas mulheres não sabem disso, e mal começam as primeiras contrações, imediatamente vão para a maternidade. É daí que surgem as famosas indicações de cesarianas por “falta de dilatação”. Ora, se não se espera o tempo necessário para que o trabalho de parto comece, o mais natural é que não haja dilatação ainda.

   Além disso, quando essas gestantes chegam ao hospital, podem ficar muito ansiosas. A pressão de “ter que entrar” em trabalho em até X horas, e muitas vezes sem poder se alimentar ou caminhar livremente, faz com que fiquem nervosas, o que pode atrasar ainda mais as coisas.

   Voltemos ao meu relato. Estamos na manhã do dia 28 de março, dia em que eu estava particularmente inclinada a desejar que meu filho nascesse. Quando soube que meu filho provavelmente nasceria em março, quis muito que fosse no dia 19 (São José) ou 25 (Anunciação), que são festas pelas quais tenho particular devoção para mim.

   Passaram essas datas, entretanto, e nada do meu Bernardo querer sair do quentinho da barriga. Quando me vi tendo de ir ao hospital fiz uma breve pesquisa e descobri que 28 de março era também uma data muito especial: a ordenação de São Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei! Isso me deixou animada, mas mal sabia eu que o molequinho só nasceria dia 29 (!).

   Me vejo sendo chamada para a primeira avaliação com a médica responsável pela enfermaria. “Suas contrações não estão fortes o suficiente” e “Você só tem 2 cm de dilatação” foram os dados considerados para o veredito: Ela queria me encaminhar para a indução. Isso era algo que eu não queria de jeito nenhum, afinal eu ainda tinha (estatisticamente) muitas chances de entrar em trabalho de parto naturalmente nas próximas horas, sem precisar passar pelas dores tão fortes que o hormônio sintético me traria.

   Argumentei que eu ainda não tinha 18 horas de bolsa rota, o que imaginei ser o máximo que o hospital esperava antes de indicar indução. A médica começou a me dizer que induzir não era tão ruim assim e que ela mesma tinha passado por isso. “Seu colo está favorável. Não será preciso iniciar a indução com misoprostol, poderá começar direto com a ocitocina”, consolou a dra. Perguntei se eu poderia optar por não induzir ainda, afinal acreditava que o protocolo do hospital me amparasse para tal. “Tenho que fazer o meu papel, vou te indicar para o médico de plantão. Lá você conversa com ele”, disse ela. Lá fui eu.

Continua...

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Relato de Parto do Bernardo - Parte I





Quando eu estava grávida do Bernardo tinha o costume de ler relatos de parto. Acreditava que conhecer a história de outros nascimentos me ajudaria a estar mais pronta para quando o dele chegasse. Lembro especialmente de ter lido um blog em que a mãe só havia escrito o relato um bom tempo depois do nascimento do filho e, confesso, achei um pouco estranho ela ter demorado tanto assim. Como o mundo dá voltas! Pois bem, aqui estou eu - que já procrastinei demais esse assunto - 403 dias depois do dia 29/3/2015 para contar a vocês como o meu parto domiciliar se transformou em uma muito bem indicada cesariana.

Como muitos já sabem, o Brasil é o campeão mundial de cesáreas. Existem muitos fatores que contribuem para esse lamentável resultado, mas esse não é o momento de falar sobre eles. Basta dizer que a grande maioria das cesarianas é desnecessária e que é muito raro encontrar um médico que faça - não apenas diga que faça - partos normais pelo plano de saúde sem cobrar nenhum valor a mais por isso.

Diante desse cenário um tanto quanto aterrador restam poucas opções:1.  Aceitar uma cesariana desnecessária e, com ela, todos os riscos desse procedimento cirúrgico; 2. Pagar uma média de 12 mil reais (!) para um médico particular, 3. Optar por um parto domiciliar assistido por enfermeiras obstetras e 4. Recorrer ao SUS. Eu decidi ter um parto domiciliar.

Esse tipo de atendimento não é tão comum no Brasil, mas em outros países sim. Para gestantes de risco habitual ( ou de baixo risco, como se dizia antigamente), essa “modalidade” de parto tem tantos riscos quanto um parto hospitalar, com a vantagem de que você pode esperar o tempo do seu bebê no conforto e tranquilidade da sua casa, que é onde muitas pessoas se sentem mais seguras. Dito isso, vamos ao relato em si.

Comecei meu pré-natal com um médico do plano, indicado por uma amiga. Ela dizia que ele fazia partos normais, então resolvi conferir. A consulta foi muito rápida e sai de lá não muito confiante. Pesquisei sobre ele na internet e encontrei um fórum em que muitas pessoas o elogiavam pelas maravilhosas cesarianas que ele tinha feito. Só encontrei um relato de parto normal (bastante elogioso até, em que a pessoa dizia que ele tinha aberto mão de uma viagem para realizar seu parto).
Juntei esses dados ao fato de que, no fim das contas, a maioria esmagadora dos médicos que se dizem abertos à possibilidade de parto normal acaba desistindo no frigir dos ovos. Não quis pagar pra ver. Comecei a me consultar com uma médica particular famosa por fazer partos naturais e o plano me reembolsava o valor das consultas. Foi maravilhoso! As consultas demoravam o tempo necessário para resolver todas as minhas dúvidas e ela me deixava muito confiante.

Infelizmente eu já sabia que ela não faria meu parto, afinal eu não podia pagar os 9 mil que ela cobrava na época. Eu também não teria mais aquele plano de saúde super legal para me reembolsar porque meu estágio terminaria antes da data provável do parto. Resolvi que teria o Bernardo no Hospital Maternidade Maria Amélia Buarque de Hollanda, do SUS, no centro do Rio.

Esse hospital é bem famoso por apoiar o parto natural e só realizar intervenções médicas com indicações de real necessidade. Fui até lá visitar, assisti a palestra que eles oferecem e me encantei. Entrei em contato com uma mãe que deu à luz lá e também foram só elogios. No entanto, eu havia contratado uma doula e ela sabia o quanto a ideia do parto domiciliar me encantava. Fui bastante encorajada por ela e, conversando com o meu marido, mudamos os planos. Tentaríamos um parto domicilar e, caso não fosse possível, eu iria para o Maria Amélia.

Iniciei o pré-natal com minha equipe de parto quando completei 33 semanas, se não me equivoco. As consultas eram quinzenais e na minha casa. No final da gestação passaram a ser semanais, e agradeço a Deus por não ter precisado sair da minha casa com um barrigão tão grande para ir ao pré-natal.

Completei 40 semanas e nada do rapaz se manifestar. Bernardo já estava de cabeça pra baixo, mas minhas enfermeiras sempre diziam que ele ainda não havia descido totalmente, o que me deixava mais apreensiva e ansiosa para que a data chegasse logo. Recomendaram que eu pintasse a barriga, escrevesse uma carta de despedida.. Formas de ajudar o meu psicológico a enviar uma simpática “carta de despejo” ao meu preguiçoso inquilino. Não fiz nada disso.

Faltando pouco mais de uma semana para o Bernardo nascer, foi detectada uma pressão arterial de 11,9 na consulta. “Nada demais”, em tese. As enfermeiras pediram que eu aferisse a pressão durante todos os dias durante uma semana e fizesse alguns exames de sangue para excluir a possibilidade de pré-ecâmpsia. É que esse quadro é caracterizado por uma pressão de 14,9 ou dois “14” (máxima) ou dois “9” (mínima). Não sei se me explico direito.

Meus exames estavam ótimos, mas durante a semana seguinte minha mãe (que é técnica de enfermagem e aferiu minha pressão todos os dias como recomendado) detectou um 12,9. Verificamos de novo e apareceu um 13,9 (?). Comuniquei às enfermeiras e, inicialmente, isso não pareceu um problema, já que meus exames de sangue estavam ok.

Passados alguns dias, uma das enfermeiras me liga e diz que elas haviam levado meu caso para um grupo de discussão (do qual fazia parte aquela médica particular que me acompanhou). Minha equipe queriam marcar uma conversa comigo e meu marido naquela noite (27/03), porque acreditavam que não era mais 100% seguro investir no parto domiciliar.

Por mais que não fossem tão preocupantes aqueles indícios da minha pressão, qualquer risco fora do habitual já me excluía do grupo de gestantes elegíveis a um parto domiciliar assistido. Fiquei um pouco chateada, mas satisfeita com a responsabilidade e o cuidado delas.

Quando faltavam cerca de 15 minutos para que as enfermeiras chegassem à minha casa para a reunião, eu estava saindo do banho. Ao me enxugar, senti um líquido quente escorrer e gritei minha mãe para que ela me ajudasse a ver se era realmente o que eu estava pensando. E Era. A bolsa estourou!


(Continua…)

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Positivo e operante


Com tanta propaganda contraceptiva, a mentalidade corrente passou a ser a de que gravidez se pega no ar que nem resfriado. Não é bem assim. Sabiam que as chances de um casal saudável engravidar são de apenas 20% a cada mês? Pois é.

No início do casamento eu fiquei muito ansiosa e me perguntava quando conseguiria engravidar. Tenho a Síndrome dos Ovários Policísticos e, embora isso não necessariamente impeça a mulher de gravidar, às vezes dificulta o processo. Minha mãe também tinha e eu demorei dez(sim, dez) anos para nascer! Eu também tenho três irmãos no céu que não nasceram.

Com esse histórico familiar acrescido ao fato de que os meses passavam e eu não engravidava, fiquei ainda mais ansiosa. Como tenho ciclos bem irregulares, vivia fazendo testes de farmácia e nada. Cheguei até mesmo a ficar 3 meses sem menstruar e me enchi de esperança, mas deu negativo.

Resolvi procurar um médico para tentar iniciar um tratamento. Ele pediu uma ultrassonografia transvaginal, mas não consegui fazer na data marcada e só pude remarcar para dali a um tempo. Da segunda vez que marquei resolvi fazer um teste de gravidez na véspera, só por desencargo de consciência.

É que eu pensava que essa ultrassonografia não poderia ser feita em grávidas. Minha menstruação estava um pouco atrasada(até aí nada de novo,) e não quis arriscar fazer uma ultra que pudesse trazer problemas caso eu estivesse mesmo.

Já estava bem acostumada aos negativos. Tenho uma amiga que disse que, quando ela descobriu que estava grávida, logo apareceu a segunda linhazinha no teste, mal ela tinha inserido a tira na urina. Eu sempre esperei os minutos que o teste sugere, mas sem muita esperança. Era dia 15 de julho.

Coloquei meu teste em ação e fui lavar a louça, pentear o cabelo, enfim, qualquer coisa que eu precisasse fazer só para dar o tempo necessário e poder jogar fora. Surpresa! Quando fui pegar o bendito para colocar no lixo eu a vi. Fraquinha, fraquinha, mas minha segunda linha tão esperada estava lá.

Fiquei chocada. Eu não estava mais tão ansiosa e já tinha aceitado que teria de esperar quando, de repente..., isso! Resolvi que faria um exame de sangue naquele dia mesmo para ver se era verdade e poder contar para o papai com convicção.

Aí começou minha saga. Antes de fazer o exame, que seria no centro do Rio, resolvi passar na Tijuca. Queria comprar um babador que tinha visto numa lojinha para poder fazer uma surpresa pro Marcos. Depois disso fui até o laboratório e, na hora de pagar para fazer o exame, cadê a carteira?

Só podia ser brincadeira. Tive que andar e pegar o metrô de volta – devia ter ficado na lojinha. Fui até lá e nada, mas pude ver nas câmeras que eu saí da loja com a mochila fechada. Lembrei, então, que quando estava no elevador indo para o laboratório a parte externa da mochila estava aberta. Pois é, provavelmente me furtaram.

Não pude fazer o exame sem dinheiro. Voltei para casa e contei mesmo assim! Disse pro meu marido que “hoje em dia esses ladrões não respeitam nem grávida...”. Ele não entendeu muito bem e eu tive que ratificar a informação. Ficou radiante, mas a nossa ficha só cairia de fato quando tivéssemos o resultado “oficial” do exame de sangue.

O engraçado é que a lojinha na Tijuca fica do lado da Basílica de Santa Theresinha, onde nos casamos. Pode parecer bobagem, mas parecia que ela queria que eu desse uma olhada na casinha dela antes de saber o resultado.

No dia seguinte, 16 de julho, era festa de Nossa Senhora do Carmo. Se vocês acompanharam os posts sobre o casamento, saberão que entreguei meu buquê a ela. Junto de São Thomas More – porque quisemos casar no dia dele –, a Virgem do Carmo é a padroeira da nossa família.

Fiz o exame. De noitinha ganhei de uma amiga um marcador de livros da santinha de Lisieux – inesperadamente. Falaram para ela que eu gostava de Santa Theresinha e ela resolveu me presentear. Fiquei ainda mais confiante porque meu resultado viria das mãos de Deus, fosse positivo ou negativo.


E foi positivo. Vimos o resultado online e descobrimos que a gestação ainda estava bem no começo. Contamos para algumas pessoas próximas, mas para a maioria dos familiares, amigos e “o público em geral” só quando completei 12 semanas. Agora estou com 20 e dia 14 faço a morfológica. Será menino ou menina? Rezem por nós! :)